Abstract
A engenharia das reacções químicas é uma das bases fundamentais do engenheiro químico. Esta disciplina baseia-se na estequiometria, na cinética, na termodinâmica, nas equações fundamentais de conservação constituintes de um sistema com reacção, etc. e é assim essencial que o aluno tenha alguns conceitos ”amadurecidos” de modo a instantaneamente os reconhecer e aplicar.
Dentro destes conhecimentos básicos está o cálculo de uma composição de equilíbrio.
A constante de equilíbrio e o seu significado não se encontra definida com precisão mesmo na formação de um aluno de química e até na formação universitária se encontram algumas incertezas na sua utilização. A reacção não está parada!
Este documento é um exemplo para ajudar a esclarecer alguns aspectos da definição, utilidade e importância da constante de equilíbrio no estudo das reacções químicas.
Por outro lado, a curiosidade dos alunos encontra-se satisfeita por muitos desafios diários, já não sendo hoje em dia natural que um aluno de engenharia aprenda por si só a utilizar software como os CAS (Computer Algebric Systems). Destes destacamos os OpenSource e no caso particular utilizaremos o Maxima (é uma alternativa do Mathematica se tiver o wxMaxima como IDE) como desafio em que se mostra como resolver uma equação transcendente, uma equação diferencial às condições iniciais e fazer um gráfico.
A constante de equilíbrio é uma propriedade de estado, deste modo não depende das condições iniciais de uma experiência. Uma vez determinado o seu valor, permite prever o valor do estado final de um sistema reaccional dado o inicial.
Há uma relação directa entre a constante de equilíbrio e a composição de equilíbrio de um sistema.
Um sistema está em equilíbrio quando a velocidade da reacção directa iguala a velocidade da reacção inversa.
Para um sistema elementar do tipo:
![]() | (1) |
em que:

A velocidade de reacção
No equilíbrio, rd = ri e pela álgebra poderemos escrever que:
![]() | (2) |
em que
Para um sistema isotérmico, uma vez determinada a constante de equilíbrio do sistema para essa dada temperatura, é possível determinar a composição de equilíbrio se o sistema for caracterizado pela sua composição em determinada situação, normalmente no início da experiência, composição inicial.
Preveja o estado final de um reactor batch isotérmico de densidade constante no qual ocorrem as reacções:
![]() | (3) |
caracterizadas por K=1.
O sistema é caracterizado pela condição inicial: [A]t=0 = 1 e [B]t=0 = 1
Solução com Maxima
Vamos apagar todas as definições e dizer que não queremos que o maxima imprima as simplificações que faz.
| --> |
kill(all)$ ratprint:false$ |
Estequiometria
Como temos apenas uma equação (2) e duas incógnitas, a composição de equilíbrio, precisamos de mais uma equação. Essa equação aparece da dependência que existe num sistema fechado para a composição, a estequiometria, que neste caso é dada pela equação (3).
Conversão
É assim possível relacionar a concentração de A com a de B com o grau de avanço do sistema. Aqui, usaremos a conversão como indicador do grau de avanço da reacção. É de notar que uma vez que o sistema é fechado, a conversão é um bom descritor da evolução da transformação química. A conversão varia entre zero e a conversão de equilíbrio que é menor ou igual a um. Quando a conversão de equilíbrio é muito próxima de um é costume dizer que o sistema é irreversível e para estes casos, a constante de equilíbrio costuma ser muito elevada (muito maior que 1).
Com a equação estequiométrica acima e com a definição de conversão (x) para a espécie A, é possível dizer que [A](t) = [A]t=0 × (1 − x).
Da mesma forma, pela estequiometria da reacção [B](t) = [B]t=0 + 2 × x[A]t=0
Equilíbrio
A equação (1) para este caso particular toma a forma
K =
=
= 1
A composição do estado final ou de equilíbrio será dada pela resolução da equação (1) em ordem a x que para essa condição será a conversão de equilíbrio xe. Em Maxima xe poderá ser obtida resolvendo a equação:
![([B ]o+ 2 × x[A ]o)2
K = ----------------
[A]o(1 − x)](equilibrio6x.png)
| --> |
bo:1$ao:1$K:1$ soln:solve((bo+2*ao*x)^2/(ao*(1-x))=K,x)$ float(soln); |
Como a equação é de segunda ordem tem duas soluções, mas apenas uma pode ter sentido físico, uma vez que se trata de uma grandeza relacionada com uma propriedade de estado e por isso apenas pode tomar um valor. A Natureza actua sempre da mesma maneira!
Como x=-1,25 não faz sentido (é maior que 1, o sinal negativo apenas
quereria dizer que havia formação de A), x = 0 é a solução física desejada e
tem um significado muito especial neste caso. Diz que a composição inicial
[A]t=0 = 1 e [B]t=0 = 1 é uma composição de equilíbrio. Há outras composições de
equilíbrio, aliás infinitas, todas que para as quais K =
Outra forma de calcular a composição de equilíbrio de um sistema é estudar o sistema até tempos longos, isto é: calcular o valor final da evolução temporal.
Considerando que as reacções (1) são elementares, a velocidade da reacção directa relaciona-se com a velocidade de transformação de A e de B pelas equações:
![rA rB
rd = --i= --i = kd[A ]α
− α β](eqi8x.png)
e a reacção inversa é dada por
![rA rB
ri = --i= --i = ki[B]β
α − β](equilibrio8x.png)
Note-se que nestas equações o sinal do denominador foi posto para reforçar que o coeficiente estequiométrico de um reagente é negativo.
Os balanço a A e B são feitos para um reactor fechado a densidade constante e isotérmico como: o número de moles que variam por unidade de tempo dentro do reactor devem-se às moles que desaparecem por se transformarem noutras e e às moles que aparecem de outras por unidade de tempo. Como a velocidade de reacção tem unidades de mol por tempo por unidade de volume de reactor temos:
![d[j]
V dt = (rjd + rji)V](equilibrio9x.png)
ou melhor, uma vez que a densidade é constante
![]() | (4) |
A composição do sistema em função do tempo é obtida resolvendo o sistema de n-1 equações (4) sendo a enésima equação substituída, com vantagem, pelo balanço de massa.
Para o sistema do exemplo anterior, o sistema de equações (4) é:
tem que ser resolvidas em simultâneo com as condições iniciais já descritas: [A]t=0 = 1 e [B]t=0 = 1 ou, substituindo uma das equações pelo balanço de massa que resolvido em ordem a B fica:
![[B] = [B] + 2([A] − [A ])
t=0 t=0](equilibrio12x.png)
Note-se ainda que a solução obtida anteriormente (no parágrafo 1.1) é afinal a solução deste sistema de equações para a condição estacionária (derivadas nulas em ordem ao tempo).
Restam duas incógnitas (ki e kd) e só temos uma equação K =
. É necessário definir um sistema em particular, deve haver muitas reacções com K=1, arbitrando um
valor para uma das constantes, por exemplo kd = 0.1, vindo ki =
e de modo a
obedecer ao sistema em estudo temos que K=1.
Solução com Maxima
Devido à equação diferencial não sere linear (devido ao termo [B]2), não podemos utilizar a força simbólica do Maxima ( ode2 ). Vamos utilizar o método de Euler recorrendo a listas do Maxima, utilizando as instruções:
| --> |
tf:100$ dt:0.1$ nstp:tf/dt$ kd:0.1$ki:kd/K$ tL:makelist(n*dt,n,0,nstp)$ AA:[1]$ BB:[1]$ for n:1 thru nstp do (AA:endcons(last(AA)+(-kd*last(AA)+ki*last(BB)^2)*dt,AA), BB:endcons(BB[1]+2*(AA[1]-last(AA)),BB))$ |
com:
Podemos representar graficamente a evolução de [A] e de [B] ao longo do tempo.
| --> |
kill(t)$ wxplot2d([[discrete,tL,AA],[discrete,tL,BB]],[t,0,100], [legend,"A","B"], [color,red,blue,green,black], [xlabel,"tempo"],[ylabel,"concentracao"]); |
Tal como determinado inicialmente, pode-se verificar na figura que a composição inicial era de equilíbrio, uma vez que não há evolução temporal.
Podemos ainda mandar calcular a conversão de A para os últimos instantes da experiência:
| --> | (AA[1]-AA[1000])/A[1]; |
Que é concordante com o valor anteriormente encontrado.
Esta introdução ainda trata a descrição de um sistema muito simples e pretende apenas consolidar ideias antes de introduzir complexidades adicionais como a do passo seguinte que será descrever um sistema fechado não isotérmico, em que o aluno será obrigado a utilizar outras equações como a de Arrhenius ( para as constantes de velocidade) e de van’t Hoff (para descrever a constante de equilíbrio).